UNIVERSALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA E PEC 55 – MÃO E CONTRAMÃO NA HISTÓRIA NO BRASIL

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Maria Regina Martins Cabral

Diane Pereira Sousa

Tendo em vista o marco zero da ocupação dos europeus no Brasil com a chegada dos portugueses em 22 de abril de 1500 este país tem quase 517 anos.  Considerando uma media geral de vida de 55 anos (atualmente a média  do brasileiro é de 75 anos), teremos tido aproximadamente dez gerações de filhos dessa pátria – amada?

Filhos que amam a pátria, mas esta, a todos eles tem dedicado o mesmo afeto? Elencando um conjunto de necessidades que cada um tem desde que nasce, apenas muito recentemente boa parte dessas necessidades tem sido atendida.

Dizem que é científica a comprovação de que a mãe tem preferência por um ou alguns de seus filhos. No caso do Brasil é muito clara essa preferência pelos mais abastados. Quanto mais tem, maior o amor. Qual será a ciência por trás desse sentimento profundamente tendencioso?

Em alguns momentos para compensar o fosso criado por tamanha simpatia descompensatória, alguns ajustes são feitos. Recentemente o de universalizar a educação básica, por tanto tempo privilégio de poucos desde sempre agraciados com muito.

O atual governo ilegitimado pela ausência da escolha democrática em um golpe marcado pela pedra jogada na costa de quem não rouba pelas mãos sujas buscadas pelos jatos que não lavam tende a tirar do cenário treze anos em que a mãe pátria decidiu abraçar a maioria de seus filhos e para eles destinar algumas políticas compensatórias e universalizar um dos direitos mais sagrados: o de aprender com mestres por dentro de instituições públicas.

Nada mais cruel do que aumentar por vinte anos o tormento pela continuidade da falta de horizonte daqueles que estão do outro lado do pródigo. Para cada bebê que nascer a outra mãe já sabe que ele estará na corda bamba da vida. Já vem do ventre ao berço sem esplendor. Receberá algum afeto, amor, direitos dessa pátria tão hipocritamente egoísta?

A PEC 55 aprovada no Senado Federal e promulgada no Palácio da Alvorada -qual? como Emenda à Constituição de 88 produzirá grandes e graves prejuízos à educação pública, desde o que se refere a investimentos para melhoria da qualidade, até a ampliação de ofertas nos extremos estruturantes: Educação Infantil – onde se prepara a elite pensante;  Graduação – onde se prepara e elite que inventa e comanda.  O que será feito com o Plano Nacional de Educação? Bom, pensando pela lógica do golpe: se não é importante o povo escolhendo presidente, por que imaginar importância de gente discutindo e aprovando plano de educação?

O teto de gastos na área da educação começará a valer a partir de 2018 quando o investimento será igual ao de 2017 (equivalente a 18% da receita líquida do governo) mais o acréscimo da inflação do ano anterior, medida pelo IPCA.

Não apenas a qualidade e a ampliação estarão em risco, mas o custeio mínimo, o funcionamento do dia a dia, com papel, material, contas a pagar de água, luz, internet, etc. Também a meta do custo aluno-qualidade, que determina um valor mínimo a ser investido por aluno para garantir qualidade de ensino, estará inviabilizado. Esse indicador para que seja aplicado precisa que o orçamento das matrículas atuais na educação básica aumente em pelo menos R$ 37 bilhões.

Afinal, o que deseja o Governo Temer com essa restrição de recursos para as políticas públicas e de assistência? Alguns especialistas dizem que o principal objetivo, o de melhoria fiscal, não será alcançado. E o país permanecerá ao investir em apenas alguns de seus filhos em um lugar que não mereceria estar. É esse o propósito? Continuar abraçando apenas os mais próximos?

Para aqueles que defendem que independente do amor preferencial todos merecem as mesmas oportunidades não se pode prescindir dos investimentos que produzirão desenvolvimento para o conjunto de sua população. Investimento que tem como foco o estudante e como estratégia o professor. Nesse sentido, o óbvio seria investir em salários, formação inicial e continuada de professores e tornar essa profissão atrativa para que bons alunos da educação básica desejem estar formando as gerações de filhos amados por uma pátria que deveria ser mais gentil.

Nenhum país que se desenvolve o faz sem investir em educação. O investimento na Educação Infantil é estruturante para o Brasil ser radicalmente desenvolvido e protagonista respeitado no cenário global. É certamente dos zero aos seis anos de idade que se constrói (ou não) o maior campo de possibilidades de criar, inventar, pensar e posicionar-se dentro e fora de um determinado território. Está claro que cada vez mais se valoriza a capacidade de criação, concepção, invenção, reflexão crítica, comunicação, gestão, habilidades que dependem de uma educação criativa, sofisticada, focada, ampliada e que se inicia já no ventre materno.

O Brasil errou e erra ao deixar nos olhos uma venda que não permite enxergar o que é mais importante para se posicionar como gigante pela própria natureza. De forma inacreditável, mesmo sendo essa a sua potência, por vias incompreensíveis a quem tem consciência, esse gigante prefere se apequenar – pela ignorância em não ver além, avareza de quem se acha dele seu dono e submissão ao império de quem prefere ser vassalo?

Somente quando a pátria-mãe perceber o poder da educação, não o processo, mas o seu desfecho poderemos alcançar outro patamar de civilidade e de bem-estar. Mas olhando para os homens que o jato não alcança porque usam capa em uma justiça que mantém quando convém a venda, fica difícil se imaginar dias de bem viver no seio, com liberdade, dessa terra adorada.

ESCOLA E DIREITOS DOS HUMANOS APRENDENTES SEM MORDAÇAS

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A educação se apresenta como o átomo mais importante para a formação do ser. É por natureza uma necessidade real, seja por dentro da escola, por meio da família ou pelo convívio diário ou não com diferentes pessoas e culturas. Trata-se, portanto da possibilidade de formação ideológica, política, social e cultural que cada um tem o direito de absorver/experimentar. Esse trabalho desenvolve uma reflexão acerca dos direitos e garantias fundamentais ligados a educação, como meio democrático, igualitário e livre. Invocando a partir de diálogos e leituras a cerca das propostas de projetos de leis que buscam regulamentar e limitar a educação, refletindo sobre o papel do professor na formação cidadã dos alunos, e sobre a participação dos alunos como sujeitos de direitos que não se submetem ao retrocesso, utilizando redes de aprendizagens/aprendentes como meio para alcançar o desenvolvimento.

Por que amordaçar quem precisa pensar, perguntar e opinar para se desenvolver e desenvolver o lugar onde vive e fertilizar o chão do desenvolvimento de quem ainda vai nascer e se desenvolver? Com essa pergunta inicio este artigo produzido no meio de mais uma polêmica de escola sem partido.

Por que mais uma polêmica?

Não vivi nos anos 1960, mas bem sei que essa foi uma década onde a censura a quem defendia a “educação conscientizadora” que ajuda humanos a se libertarem da submissão a outros humanos foi evidenciada ao máximo de sua possibilidade naquela conjuntura do Golpe Militar de 1964.

Paulo Reglus Neves Freire, educador brasileiro reconhecido internacionalmente por sua práxis educativa, ficou conhecido por ter desenvolvido um método inovador de alfabetização, que o tornou uma inspiração para gerações de professores, principalmente na América Latina e na África. Seu método conquistou muitos adeptos entre pedagogos, cientistas sociais, teólogos e militantes políticos. A coragem de colocar em prática um trabalho de educação libertadora, que identifica a alfabetização com um processo de conscientização, fez de Freire um dos primeiros brasileiros a serem exilados pela ditadura militar. Acusado de subversão e preso em 1964, durante 72 dias, partiu para o exílio no Chile, onde trabalhou por cinco anos no Instituto de Capacitação e Investigação em Reforma Agrária (Icira) e escreveu seu principal livro: “Pedagogia do oprimido” (1968). Freire ainda passou por Estados Unidos e Suíça. Nesse período, prestou consultoria educacional a governos de países 4 pobres, a maioria no continente africano.                         (memoriasdaditadura.org.br)

Freire hoje é o mais famoso intelectual brasileiro fora do Brasil, quem mais vendeu livros. Na Espanha existem Núcleos da Universidade Popular Paulo Freire, onde trabalhadores a partir de seu método refletem sobre a vida para ampliar conhecimentos sobre seus direitos. Em 1964 o que fazia Freire para deixar tão aflitos os militares? Algo ruim para o Brasil? Depende da perspectiva. Pensando em quem detinha o status quo e queria preservá-lo, pode ser que esse Pernambucano fosse um grande perigo ao sistema de poder instalado. Afinal, ele incentiva trabalhadores que estavam se alfabetizando a ao mesmo tempo em que apreendia a base alfabética refletissem sobre a vida que tinha e a vida que poderiam ter. Para um aluno pedreiro, além do aprendizado da palavra tijolo ele também aprendia que os tijolos são produzidos por mãos humanas, que fazem a massa, coloca-a na forma, no forno e no comércio onde se compra para posteriormente ser levado ao terreno onde uma nova construção ocorrerá. Lá, nesse terreno, mãos humanas sem escolarização e habitação digna constroem casas para corpos humanos viverem sem a terem construído.

Mesmo que a construção das casas continuassem por essas mãos, o valor desse trabalho seria conhecido e sua adequada valorização, como direito humano do trabalhador seria reivindicada. Para os militares de 1964 essa metodologia era um risco para a vida do país. País reduzido à minoria que detinha o controle político e econômico naquela conjuntura. Os anos se passaram, veio a redemocratização do país e novas e múltiplas metodologias surgiram por dentro e por fora da escola, em unidades e em redes onde a juventude é estimulada a indagar, a perguntar, a desenvolver-se enquanto cidadã, jovens sujeitos de direito. Cabral (2014) resgata questões do pensador francês Schaller para falar da importância de se aprender perguntando sempre, em redes de aprendizagens. Que perguntas são essas?

Como desenvolver a participação, o envolvimento recíproco entre os indivíduos e os grupos, a fim de se construir modalidades coletivas de práticas e de tomada de decisão? Como co-produzir? Como pode uma Rede ser um espaço aberto e dinâmico onde pessoas ampliam seu processo de formação, ou, como ele diz, um “lugar aprendente” ? Como uma Rede dinamiza a ação coletiva enquanto expressão de identidade cultural e de solidariedade? Para ele, falando sobre lugares aprendentes, mas que podemos pensar Redes de Aprendizagem, “a noção de lugar remete à relação que o indivíduo tem consigo próprio e com os outros: o lugar está homologado e constituído pela pessoa em si e pelo outro”…. (SCHALLER, 2007)

Nesse sentido o diálogo é necessário e quando há diálogo se produz conhecimentos, a partir do contraditório, do diverso, do abrangente, do que existe e do que se busca. Os três mandatos de Governo do Partido dos Trabalhadores possibilitaram avanços no que se refere as direitos humanos, ao acesso à educação superior e técnica e à livre organização metodológica das escolas. Esses avanços e a contínua vitória desse partido nas eleições presidenciais sinalizou à elite detentora de poder nos três poderes, mesmo sem estar na presidência da república, que a população estava consciente de seus direitos e os trabalhadores detentores de salários altos, dois fatores que não favorecem maior concorrência internacional de produção, se comparado o pais com outros onde baixíssimos salários e poucos direitos predominam.

Nesse contexto de quase agonia de uns e ódio por contínuas derrotas de outros nasce um projeto que nos leva de volta a 1964. Isso exatamente em um momento em que a juventude está mundialmente interconectada, 50 anos depois de Freire ser exilado. E com apoios de grupos conservadores e da grande mídia também dominada por grandes grupos econômicos, mas que para além disso se enredou em uma área pantanosa, a elite pós-golpe 6 (impeachment 2016) tenta retirar direitos dos aprendentes de construírem saberes com múltipla visão, análise na raiz dos fatos. Descobriram o quanto é perigoso o povo saber muito. Portanto, educação deve ser dosada. Educação crítica deve ser proibida.

Em Pedagogia da Autonomia diz Freire:

Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu “destino” não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo. Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do inacabamento sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre ser condicionado e ser determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado. Gosto de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de minha presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da influência das forças sociais, que não se compreende fora da tensão entre o que herdo geneticamente e o que herdo social, cultural e historicamente, tem muito haver comigo mesmo. Gosto de ser gente porque, mesmo sabendo que as condições materiais, econômicas, sociais e políticas, culturais e ideológicas em que nos achamos geram quase sempre barreiras de difícil superação para o cumprimento de nossa tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos não se eternizam. (FREIRE 1995).

Ser gente e saber que a passagem pelo mundo não é preestabelecida é um grande problema, pois causa mudança de rumo. Um pobre pode estudar, um negro pode ser doutor, uma mulher pode ser presidenta, um agricultor pode ser um prefeito, um índio pode ser um advogado, milhares podem viajar, centenas podem passear no shopping.

Uma Rede de aprendizagens, quaisquer que seja, configura-se como uma concatenação de muitas pessoas e ou organizações, por isso mesmo muitas diversidades… pois a diversidade faz parte do mundo e o pensamento diverso constrói a prática democrática, que nos remete a horizontalidade ou ao círculo e não ao pensamento único vertical, a não ser que seja de origem verticalizada, mas ela não seria interligada entre os polos. (CABRAL, 2014).

O QUE É O MOVIMENTO ESCOLA SEM PARTIDO?

O movimento Escola sem Partido nasceu em 2003, a partir de uma iniciativa do procurador do estado de São Paulo, Miguel Nagib. Durante anos, suas propostas não encontraram eco até que, em 2014, um encontro com a família Bolsonaro mudou essa realidade. Nesse ano, o deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro (PSC), pediu para que Miguel escrevesse um anteprojeto de lei. O texto foi, então, apresentado pelo filho do deputado federal Jair Bolsonaro na Assembleia Estadual do Rio de Janeiro. O líder do movimento fez uma versão municipal que foi apresentada pelo outro irmão da família, Carlos Bolsonaro, na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. (UOL, 2016) 8 São muitos os movimentos e iniciativas que se espalharam pelo país com essa temática. Até o final de julho 2016 em nove estados e no Distrito Federal projetos de leis com esse tema estavam em tramitação nas Casas Legislativas.

De fato, existe um movimento denominado Escola sem Partido que se apresenta como “uma iniciativa conjunta de estudantes e pais preocupados com o grau de contaminação político-ideológico das escolas brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior”. Eles dizem que “a pretexto de transmitir aos alunos uma “visão crítica” da realidade, um exército organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo”. (ESCOLA SEM PARTIDO) Existem projetos de leis, a maioria seguindo o modelo de um anteprojeto elaborado e defendido pelo “Escola sem Partido”. Aqui em análise estão PLS 193/2016, PL 1411/2015 e PL 867/2015.

Esses projetos falam sobre “os direitos e deveres dos professores dentro da sala de aula, os direitos dos pais na decisão sobre o conteúdo da educação dos filhos e regras para a definição de livros didáticos a serem adotados pelas escolas” (G1) 9 Mas o que dizem quem defende uma escola sem partido? Entre alguns pontos, alguns que destaco:

A Escola deve ser Neutra

Para o movimento, a “educação atenderá aos seguintes princípios: neutralidade política, ideológica e religiosa do estado”. Ao defender esse projeto, sua defesa em si já é por si só não neutra. Pois defende um posicionamento em relação ao qual existem muitos outros contrários. Neutralidade em relação a que? Às injustiças, aos abusos, ao preconceito? Para o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito a Educação, Daniel Cara, a neutralidade absoluta é impossível de ser atingida.

“Não é possível (ser neutro) porque qualquer tema que se aborde leva um juízo de valor do professor, o que é importante. O que ele não pode fazer é limitar a aula a seu juízo de valor. Determinar a neutralidade política numa lei é um equivoco absoluto” (UOL) Em artigo publicado na Revista Cara, Claudia Dutra e Camila Moreno dizem que “esse projeto visa eliminar a discussão ideológica no ambiente escolar, restringir os conteúdos de ensino a partir de uma pretensa ideia de neutralidade do conhecimento”.

Estudantes são Folha em Branco

Este é um dos mais ingênuos argumentos do movimento. Paulo Freire já dizia que todas as pessoas / aprendentes tem conhecimento. Isso desde 1964. Neste século essa realidade é ainda mais contundente. Um dos maiores desafios que professores tem enfrentado em sala de aula é exatamente a grande quantidade de conhecimento dos alunos apreendidos em redes sociais, no uso continuo da internet. Não precisam, em muitos casos, da escola para lhes ensinarem. Exatamente por essa razão a escola precisa partir do que os alunos pintam em suas folhas para alimentar um diálogo produtivo. E o avanço de ser humanizado, civilizado, consciente, humanizado ocorrerá exatamente com o contrário do que a Escola sem Partido defende.

 Escola regida pelos valores familiares

Esse é outro grande equívoco. São muitas as famílias representadas em cada sala de aula. Famílias com ideologias diversificadas. Quem vai definir o rumo? Qual família? Como estabelecer o diálogo com neutralidade. Trata-se de uma elaboração que contraria o princípio constitucional do pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, assim como o da liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, considerando como válidos determinados conteúdos que servem à manutenção do status quo e como doutrinários aqueles que representam uma visão crítica. (CARTA CAPITAL, 2016)

 Ideologia de Gênero

Como pensar uma escola sem dialogar sobre seus sujeitos. Como passar por uma instituição em pleno século XXI, com redes sociais repletas de informação se a instituição responsável por fazer aproximações entre o que sou e o que posso construir ficar parada como uma estátua? Os alunos provocam e os professores calam? A sociedade violenta e os professores calam? Para Bernardo Fonseca, da USP, “uma proposta de discussão de gênero na escola ambiciona incluir gênero como ferramenta que nos ajuda a entender o mundo e tomar uma posição a respeito das diversas violências que produzimos, reproduzimos e sofremos”. Defender essa premissa, artigo ou visão é o mesmo que pedir, parafraseando de Chico Buarque a expressão “joga pedra na Geni” “joga pedra no gay”, “joga pedra no travesti”, “joga pau na lésbica”. Sejam maus. Matem o diferente. Aprendentes no ódio para ódio assimilar e irradiar. Que escola é essa?

Censura

Como fazer com os professores que são autoridades na escola? Calá-los? Exilá-los? Prendê-los? A censura aos professores chega a ser um acinte a quem trabalha 11 com educação na perspectiva do desenvolvimento humano social e econômico em um país como o Brasil, uma das maiores economias do mundo. A proposta de afixar nas escolas do país cartazes com os deveres do professor é própria das ditaduras mais obscuras. Nesse cartaz, defendem, deve conter os deveres do professor, que seriam:

I – O Professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias.

II – O Professor não favorecerá, não prejudicará e não constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.

III – O Professor não fará propaganda políticopartidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.

IV – Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

V – O Professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.

VI – O Professor não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros, dentro da sala de aula. (ESCOLA SEM PARTIDO).

O Ministério Público divulgou Nota Técnica considerando o PL Escola sem Partido inconstitucional. Sobre a nota :

Sob o pretexto de defender princípios como a “neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado”, assim como o “pluralismo de ideias no ambiente acadêmico”, o Programa Escola sem Partido coloca o professor sob constante vigilância, principalmente para evitar que afronte as convicções morais dos pais. Os mesmos subvertem a atual ordem constitucional, por inúmeras razões: confunde a educação escolar com aquela que é fornecida pelos pais, e, com isso, os espaços público e privado. Impede o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, nega a liberdade de cátedra e a possibilidade ampla de aprendizagem e contraria o princípio da laicidade do Estado – todos esses direitos previstos na Constituição de 88. A procuradora federal dos Direitos do Cidadão reforça a importância de desmascarar o compromisso aparente que tanto o PL como o Programa Escola sem Partido tem com as garantias constitucionais, “a começar pelo uso equivocado de uma expressão que, em si, é absurda: ‘neutralidade ideológica. (MP, 2016)

Mesmo que de forma obtusa uma PL como essa seja aprovada em nível nacional ou de algum ente federativo, as pessoas superarão esses limites dado o acesso que cada vez mais têm tido nos vários mundos acessados através das redes formais, informais, virtuais, presenciais. Para Cabral, “em uma prática democrática, as organizações e ou pessoas ao mesmo tempo compõem e constroem continuamente a rede aprendendo e tecendo o conjunto de ações e relações existentes”. Schaller reforça dizendo que “cada elo da rede… pode se tornar um evento, uma bifurcação, estar na origem de uma nova circulação de fluídos que traduzem a ação coletiva“. Não haverá mordaça que calará a multidão. Os estudantes hoje, no mundo vivem em redes. Para Capra, por exemplo, partindo do conceito da Biologia, “Redes vivas são autogenerativas. Elas criam-se e recriam-se continuamente, transformando-se ou substituindo seus componentes…elas passam por mudanças estruturais contínuas enquanto preservam seu padrão de organização similar a redes“. (CAPRA, 2008, p.20)

As redes de pessoas e organizações vivas da sociedades são redes sociais, culturais, educativas e muito mais atuantes no campo simbólico, da comunicação, mas também da dominação e ou da “libertação”. “São antes de tudo redes de comunicação que envolvem linguagem simbólica, restrições culturais, relações de poder…Assim como redes biológicas, elas são autodegenerativas, mas o que geram é imaterial. Cada comunicação cria pensamentos e significados, os quais dão origem a outras comunicações, e assim toda a rede se regenera“..(CAPRA,2008, p.22;23).

Trabalho com e em redes desde meus 13 anos de idade quando ingressei no Conjunto Integrado de Projetos denominado CIP Jovem Cidadão. Desde então, sou aprendente e “ensinante” em redes e, em muitos momentos estive coordenando processos. Por isso, sei que quando o conhecimento começa a circular, mesmo que ele vá se modificando ele pode chegar longe.

Para Cabral, “há redes de aprendentes na contramão da perspectiva de concentração de poder, ou de transformação da rede em um simples grupo de amigos. Ela cita Schaller para dizer que ele nos lembra sobre lugares de aprendentes que podem ser as escolas e outros espaços, inclusives os virtuais, que são lugares ou elos de lugares que se entrelaçam. Neste sentido, todo lugar é de aprendizagem e esta constante obriga a uma mudança de perspectiva da parte dos atores responsáveis por intervir junto à população. Assim sendo, não importa a imposição para dentro da escola, mesmo lá e fora dela o movimento contrário ao movimento imposto ocorrerá. Mesmo assim, não vale legitimar um conteúdo ultrapassado e humilhante que a PL contém.

 

Frio – Cobertor?

frio

Já escrevi e apaguei diversas vezes, sei exatamente o que quero falar, mas não consigo dizer. A busca por um café é inevitável, meu relógio marca 00:22 e eu estou longe de ir para os braços de Morfeu.
Ficou frio por aqui, eu busquei outonos, mas só havia inverno. Pedi o brilho de Nix todos esses dias, busquei de todas as formas me desprender dessa angustia absurda que existia aqui e tudo que me vinha a cabeça eram os 18’s.
Será que tu és tão impiedosa a ponto de não se importar? Não te dei o direito de me levar Nix e me deixar aqui achando que eu só podia contar com Dionísio. Teu papel nesse espetáculo era claro: faça-me feliz.
Mas eu esqueci que você não podia. Me deixei levar por aqueles olhos de cigana, obliqua e dissimulada, por esses lindos olhos de Capitu, e já era tarde, eu já estava de volta, sozinha e você naquele momento estava para mim descrita nas palavras de Mário Quintana: E que fique muito mal explicado, não faço força para ser entendido. Quem faz sentido é soldado.
Meus pés estavam gelados, minha cabeça queria entender todo furação que estava se formando, e meu coração, esse maldito coração imbecil só pensava nos 18’s, na essência dont walk away from me.
Em mim se abriga uma sede incessante que o vento insiste em alimentar…teu cheiro.

Hoje eu consegui ver a beleza da Nix, mas ainda sinto frio

Be happy!

NA CONTRAMÃO DO ÓBVIO

isso ai

Hoje recebi a peça que faltava para completar minha inspiração e me fazer voltar a escrever em meu blog.

Não consigo pensar em nenhum texto inicial mais brilhante nesse momento do que o discurso da atriz Viola Davis no Emmy 2015. Numa tradução minha, ela diz emocionada logo após pegar o microfone do apresentador:

“Em minha mente, eu vejo uma linha. E além dessa linha, vejo campos verdes, flores adoráveis e lindas mulheres brancas com braços estendidos para mim, além da linha, mas não consigo chegar lá de modo algum, não consigo passar da linha”.  Ela reproduziu uma fala de Harriet Tubman dita nos anos 1800. Mais de um século. Tão atual!

“De verdade, a única coisa que separa mulheres de cor de qualquer coisa é a oportunidade. Você não pode vencer um Emmy por papéis que simplesmente não estão lá. Este premio vai para todas as pessoas que redefiniram o que significa ser bonita, ser sexy, ser uma protagonista, ser negra”.

Entro em êxtase todas as vezes que vejo o vídeo de Viola, e ao mesmo tempo fico em choque quando escuto, vejo e vivencio o lado contraditório do que esse discurso nos mostra.

Inicio meu décimo período como Acadêmica de Direito, fase em que me considero mais madura no âmbito da graduação, no contexto do trabalho que tenho e principalmente na postura social que escolhi. Com o término do meu curso a procedência ou pelo menos o anseio de atuação no mercado, velhos e suspeitos discursos recebem mais forças, um deles inevitavelmente tem a ver com “estética”.

De verdade, é importante enfatizar que, na minha opinião não é o tamanho do short que usamos, não é a blusa decotada que decidimos escolher, não é o fato de se ter a cor A, B, C ou D, muito menos o ritmo musical que aprecio, quer seja o  funk ou seresta na minha playlist,  que justifica sermos ou não atiradas, sermos ou não vitimas de assedio. Quem assedia tem dentro de si esse conteúdo e para esse ato não precisa de nenhum pretexto.

Da mesma forma não é o tamanho do salto que eu uso muito menos a marca do blazer que eu compro que definirá a extensão da minha capacidade intelectual, do meu desempenho como advogada.

Existe uma diferença clara entre ter que ser e querer ser. Ultimamente vivemos atos que estão cerceando nossa liberdade, retrocedemos muito nos últimos meses e estamos muito aquém de nos tornarmos um país justo. Olhando a conjuntura estamos tristemente andando como caranguejos.

Umas das razões mais revoltantes desses processos é o fato da culpa nunca ser de quem comete o ato selvagem quer seja do abuso (quem assedia), da corrupção (quem comete e compactua) ou dos golpes políticos (quem está envolvido) contra pessoas ou nações, na forma subjetiva ou objetiva, mas sim, sempre recair no lado mais fraco. É sempre quem tem menos poder político ou econômico a vítima a quem recai a culpa quer seja em caso de estupro ou assédio, ou a qualquer outro caso anteriormente citado.  Quem é negro sempre é primeiramente visto como culpado. Por quê? Pela cor? Pelo fato de ter seus antepassados escravizados? Por que tanta morte de jovens negros? E de quem é a culpa? Da vítima?

A pergunta de quem é negra, como eu é: Qual é a minha responsabilidade na culpa que vocês nos imputam, mesmo se formos inocentes?

Ser bom ou mal, ser honesto ou desonesto não depende de cor, gênero e ou situação financeira. Ser capaz também não depende da roupa usada.

Não! O padrão de beleza alcança outros elementos para além dos que os meros critérios estéticos hegemônicos conseguem delimitar.

No trabalho de advogado, professor ou médico apenas para citarmos três exemplos precisamos sim nos vestir adequadamente, mas sem exageros! Sem imposição de um padrão único. O importante é sabemos exatamente o que fazer e como fazer. Por que elevar o nível de exigência? Não esqueçam que a linha é tênue e a realidade atualmente é outra. Algumas das pessoas mais inteligentes do mundo preferem simplificar na estética para potencializar a cabeça colocando o mundo numa via mais humanizada e feliz.

De salto, de alparcata, de oxford, de havaiana, de bolsa Carmen Stefen, com perfume de marca, com a preferência e a condição do momento, sem preconceito é como se deve estar. Comendo no restaurante mais sofisticado ou no cachorro quente que fica em frente ao escritório ou tribunal.

De repente Bacharéis em Direito

 

Esta é uma carta dedicada a três pessoas de primeira grandeza: Petrônio Soares, Ingrid Nunes e Lazáro Filho.

Era agosto de 2011, e lá estávamos nós. Habitando aquela que nos parecia uma Universidade difícil de ser habitada, mas que não seria esta que pararia o desejo de seguir adiante. Poderia fazer uma descrição individual de quem éramos e o que somos hoje, mas não farei. Vejo como mais bonito nossa unidade integrada.

Foram quatro anos juntos, e vocês para mim representam aquilo que é a vontade, a luta, a dedicação e o amor daqueles olham para frente e simplesmente vão. Representam uma parcela significativa e ampla da população brasileira que apesar das dificuldades ainda persiste, ainda luta, ainda consegue olhar para além do horizonte.

Meus caros, vocês são merecedores de toda honra e respeito que portam nesse momento. São o sorriso de cada um de seus familiares, dos que já consolidaram suas vidas e daqueles que ainda buscam inspirações para fazê-la. Este universo é todo de vocês, peguem, tomem, cuidem, vivam!

Não poderia deixar de citar aqui o grande Guimarães Rosa.

 

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.”

 

Cinco anos com coragem e sabedoria que refletirá em mais tantos outros de realizações.

Sejam felizes, sejam amados, sejam amáveis e principalmente sejam vocês.

Um abraço fraterno.

Diane Pereira Sousa

QUEM GANHARÁ ESSA GUERRA: a direita coxinha, a esquerda caviar ou os brasileiros arroz com feijão?

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Estava navegando nos blogs que visito e me deparei no do Nassif com essa foto que ilustra este artigo. É uma foto da jovem Dilma em seu baile de debutante. Pouco tempo depois ela foi para a luta contra a Ditadura, saindo de seu mundo de conforto, em geral onde vivem os que pensam primeiramente em si, para o mundo dos que lutam por muitos, pela maioria, independente do sofrimento, movida pela consciência. Já me diz uma amiga que consciência dói mais que tortura física.

A foto reacendeu em mim a vontade de escrever sobre este tema, porque transito entre esses três grupos e gostaria de provocar algumas discussões por aqui.

Como participo de muitas redes sociais e de grupos no whatsapp, facebook, instagram recebo o tempo inteiro mensagens de coxinhas colegas de faculdade e convivo de forma mais próxima com muitas pessoas de esquerda que poderiam receber (por parte da oposição) a denominação de esquerda caviar e com brasileiros arroz com feijão. Antes de entrar nessa disputa, vou fazer uma breve explicação das duas expressões:

A expressão direita coxinha é usada para associar jovens de classe média e jovens ricos conservadores e adeptos da direita política e do sistema capitalista, ou seja, àqueles que defendem políticas neoliberais, percursos individuais, privatizações, entre outras bandeiras (como intervenção militar) e que, ao mesmo tempo, se posicionam contra a maior participação do Estado na vida econômica e social do país e a tudo que se refere às bandeiras mais primorosas da esquerda e aos direitos das minorias e dos mais vulneráveis. Mais recentemente se autodenominam coxinhas os militantes que detestam o Partido dos Trabalhadores.

Já a expressão esquerda caviar é mais antiga. Em francês: gauche caviar foi criada nos anos 1980 para descrever os jovens de classe média, socialistas, que vivem no glamour e no luxo. Quem cunhou essa expressão queria dizer que esses eram incoerentes, por defenderem o socialismo e viverem suas vidas na riqueza. Alguns termos adotados com o mesmo sentido são: champagne socialista e esquerda festiva.  Entretanto, esse termo tem sido criticado pelo fato de que aqueles que defendem o socialismo não estão fazendo voto de pobreza, mas lutando para que todos tenham mais direitos, mais qualidade de vida e a riqueza seja compartilhada e não concentrada ns mãos de poucos.

Luta de expressões à parte, o que tem garantido os avanços no Brasil, mediante quatro eleições seguidas do Partido dos Trabalhadores tem sido os votos dos trabalhadores “arroz com feijão” e isso tem sido a grande dor de cabeça dos meios de comunicação, instrumentos da elite coxinha. E não se pode deixar de notar, que muitos que constituem os “autênticos” esquerda caviar tem balançado com a selvagem campanha midiática contra o PT e levado o caviar para comer na mesma mesa das coxinhas, como exemplo mor a Senadora por São Paulo Martha Suplicy.

Ainda bem, que nossa Presidenta continua transitando entre a esquerda caviar, os trabalhadores arroz com feijão, sem deixar de dialogar com coxinhas menos truculentos.

Quarenta e cinco

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Nada melhor do que iniciar um texto como este, usando Guimarães Rosa como inspiração. “É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado”.

Por todos os caminhos que andei, nos quatro continentes onde já pude estar, as histórias são infinitas e se tornam imortais em mim. Porém esta não é uma historia qualquer, é sobretudo uma maneira de enxergar e encarar a vida, é um caminho construído com dor e alegria.

Certo dia estava eu cá, querendo desvendar o que move as pessoas. É claro que essa seria de cara uma tarefa muito difícil, mas me veio à cabeça um perfil que eu desconheço, mas que já ouvi falar. O que te move Conceição?

Este novo contexto social que estamos vivenciando é um reflexo das mudanças que ocorreram nos últimos 12 anos. Os fatos estão ai para comprovar. Sim, eu sei que ainda é preciso melhorar muita coisa e estamos lutando por isso. Hoje, os teus netos crescerão com mais oportunidades para se desenvolver;  hoje, tua filha te encherá mais ainda de orgulho, isso é um mérito teu, mas também é consequência das políticas públicas e econômicas.

Sei que a vida não te deu muitas escolhas, que debaixo dos teus pés existe muito chão, que nos teus olhos existe outros horizontes,  que seu coração carrega muitos amores. Para trás já houve tempos de chuva, de longas estradas, ferrovias percorridas, rios nadados… ;e nunca fraquejastes, ainda que o peso nas tuas costas fosse maior do que tu podias suportar. Essa é uma lição de que a dor existe, mas a opção da felicidade também existirá.

Para onde aponta teu coração? Em que mar estás neste momento? Em que espaço virtual te conectas?

Não é maiúsculo nem minúsculo, apenas é. Um vinho, um violão, uma música de fundo e de repente a sensação de que estaremos sempre vivos e desfrutando do mesmo céu vermelho.

Se eu te encontrar um dia, tu podes me dar um abraço, Conceição?