EDITORIAL 2015 – AOS DONOS DA GLOBO: indignação, felicidade e compaixão

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Prezados Senhores,

Durante o tempo que assisti a Globo e quando li alguns exemplares do Jornal o Globo algumas vezes me deparei com o vosso editorial. Hoje, sou eu que me atrevo a escrever um. Como se trata de opiniões de todos os lados, este apenas expressa o que penso, neste nosso país onde valorizamos tanto a liberdade de expressão, não é isso?

Sei que fazem parte da mais rica família brasileira. E é desse status (e lugar) herdado de seu pai, que iniciou a administração da TV Globo, concessão pública que tem gerado toda essa riqueza, que vocês auscultam vozes e espraiam poder até aonde o império permite chegar.

Quero lhes dizer que muito tenho pensado desde as últimas eleições. Elas me educaram politicamente. E um desses pensamentos se refere às seguintes questões: De que adianta termos vereadores, deputados, senadores? De que adianta elegermos prefeitos, governadores, presidentes? Vocês já são os imperadores, quem sabe os reis do Brasil! Precisa de algo mais? Por serem imperadores, donos do quarto poder, só se mantém no “subcomando” quem vocês desejam, aqueles que submissamente aceitam alimentar o seu império/reinado, da mesma forma como acontecia na velha aristocracia. Só que na aristocracia os burgueses sabiam que tinham que se desligar, romper com esse poder.

Como no Brasil a burguesia ainda tem nuances da velha aristocracia, com os filhos fantasiados o ano inteiro de coxinhas sem noção, nem percebe que quanto mais vocês com o poder de imperador destruírem o Brasil para manterem o seu Império, mas eles poderão vir a ser destruídos também, porque a indústria e o comercio necessitam desse povo que emergiu da miséria e que hoje se movimenta e consome pelo Brasil afora, feito impressionante de trabalhadores que decidiram também comandar e que precisam de qualquer forma ser humilhado, desgastado, para que retornem ao lugar que vocês julgam ser o deles. Eu fico a perguntar: qual seria, na opinião de vocês, o meu lugar?

Eu gostaria neste momento de fazer um recorte a uma parte do povo brasileiro, àqueles que como mão de obra escrava, depois que foram arrancados de sua terra para mover a terra que por muito tempo não lhes pertenceria, permaneceram por décadas sem direitos, mesmo com a abolição tendo sido assinada, durante o outro império, o dos “Pedros”.

Esse recorte é para dizer o susto que tive ao ver, na internet, em um programa humorístico, um comercial fazendo apologia ao trabalho escravo. Vende-se negros escravos, da Bahia? Por que tripudiar com um povo e um território? Que triste! Que nojo! Que pena! Por que vocês acham, por exemplo,  que onde teve mão de obra escrava os trabalhadores negros tiveram dificuldade em continuar trabalhando na terra? Por que não gostam de trabalhar? Não, porque se não gostassem esse país não teria produzido tantos ricos do café, do açúcar, do cacau … mas, porque as suas lembranças eram da tortura. Além disso, a sociedade preconceituosa e pouco sensível nunca ajudou muito. Assim como vocês tripudiam com esses programas de humor, muitas vezes as gerações mais novas que vivem no campo, de pretos, brancos, índios ouviram de professores que se não estudassem iriam para roça, como forma depreciativa, como se roça não fosse lugar também para pessoas instruídas….por que roça deve ser lugar de burro? Eu mesma, muitas vezes tive que dizer a outros jovens que se terra não fosse boa o agronegócio não a quereria e que eles poderiam estudar e viver felizes produzindo na terra cada vez com mais qualidade, agregando mais valor ou em qualquer outro trabalho, do mais simples ao mais sofisticado, com a tranquilidade de quem é livre, bonito, estiloso e capaz.

Mas o comercial saiu, está nas páginas da internet. E não vi ninguém se pronunciar. Depois começarão a dizer que isso é só humor e que os esquerdopatas querem qualquer motivo para reclamarem. Essas são as formas de defesa que repercutem na mídia para nunca se ir à raiz das questões. Eu imagino que vocês sabem que programas assim não ajudam a superar preconceitos. Mas somente quem teve seus bisavôs, avôs, antepassados tratados como animais escravizados, sentem na pele a dor não pela história do passado, mas pelo escárnio no presente.

Poxa Adnet! Sou sua fã, mas a cada dia parece que você se apequena ao se submeter a essa pauta. Você é grande, é um inspirador de muitos jovens, de um mundo mais justo, já encheu meu peito algumas vezes de alegria…. Quem já tem a cara do império, eu nem ligo, respeito as opções, quaisquer que sejam, nem por isso deixarei de lutar pelo que acredito e por quem acredito.

O que sei não é muito, mas suficiente para perceber que é do alto desse império, que os senhores olham para o país e seu povo. Com uma lupa que enxerga a totalidade dos mais próximos de si e, de forma muito embaçada, os demais que estão espalhados pelo território brasileiro, muitos parecidos comigo, uma jovem negra, de 22 anos. E é exatamente porque esses milhões que hoje estudam, trabalham, viajam, consomem (se querem), estão cada vez mais se emancipando e ocupando importantes espaços nesse país, que acredito ser essa a razão de tantas críticas nos últimos anos de governo.

O país mudou, mas vocês preferem continuar a voltar suas armas para a manutenção de um Brasil restrito. Para os milhões de brasileiros do Brasil profundo e amplo, vocês também têm algumas ajudinhas, que ao mesmo tempo lhes permitem enriquecer com a dedução de impostos e mostram uma face boazinha com ajuda de artistas convincentes. Que ajudinhas são essas? Programas do Canal Futura ou o Criança Esperança…. Para esses brasileirinhos do Bolsa Família e das cotas BASTA ISSO! Por que e para que garantir mais do que ISSO, não é mesmo?

É claro que eu fico indignada quando vejo tantas pessoas falarem bobagens de tantas coisas boas para a maioria da população. E, por enquanto, não estou falando em corrupção, esse não é o conteúdo, apesar de ser outro assunto que me deixa indignada. Mas todas as pessoas DECENTES e HONESTAS sabem que essa história é antiga. Quem não viu a corrupção desde pequeninho ali bem pertinho, na cidade onde nasceu e cresceu? Quem não viu por décadas na própria Globo essas críticas? (Eu sou muito nova, mas minha avó me conta). Quem não sabe que a maior tentativa de destruir a Petrobras e outras importantes empresas brasileiras foi em um governo tucano? Mas tudo isso é assunto para outro texto. Agora quero falar de Indignação pelo descaso, pelo preconceito, pela falta de sensibilidade com a totalidade do povo brasileiro, de modo particular com a população negra.

E ao chegar neste ponto também sinto um pouco de felicidade por ter uma consciência que me permite enxergar para além da notícia distorcida diariamente. Fico feliz por me sentir emancipada e livre dos tapa olhos da mídia brasileira. E, na mesma medida desse sentimento de felicidade pelo que sou e pelo país que estamos construindo, não consigo deixar de ter compaixão pelos senhores. Sim, compaixão! Por quê? Por essa muralha que vocês construíram que deve ser sufocante. Deve ser muito ruim ser a família mais rica de um país. Todos os dias contar dinheiro como o tio Patinhas para não perder o posto, para não perder o poder. Ser aprisionado ao poder. Àquele poder de provocar derrotas e impedir a continuidade de governos não alinhados (como Lula e Dilma). Que sofrimento com esses dois, hein!? Nunca imaginaram que eles seriam tão difíceis de serem derrotados, não é mesmo? O desespero dos senhores deve ser grande, eu entendo! Por isso, mesmo com compaixão eu não posso deixar de achar engraçado. Como é que um povo que não tem direito a voz nos meios de comunicação está tão coeso na manutenção de um país que se desenvolve? Será que o império da República está ruindo?

Que o Brasil continue se desenvolvendo!

Que os corruptos e inimigos do Brasil sejam todos punidos, não importa quem sejam.

Que a Presidenta deste país não seja induzida a nenhuma das atitudes do que já aconteceu com outros presidentes no passado.

E que os brasileiros comecem a olhar com mais autoestima e altivez o país que tem.

Bom, é apenas uma opinião. O meu editorial.

Espero que vocês leiam, assim como sempre esperam que leiamos ou auscultemos os editorias do Sistema Globo de Comunicação.

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