NA CONTRAMÃO DO ÓBVIO

isso ai

Hoje recebi a peça que faltava para completar minha inspiração e me fazer voltar a escrever em meu blog.

Não consigo pensar em nenhum texto inicial mais brilhante nesse momento do que o discurso da atriz Viola Davis no Emmy 2015. Numa tradução minha, ela diz emocionada logo após pegar o microfone do apresentador:

“Em minha mente, eu vejo uma linha. E além dessa linha, vejo campos verdes, flores adoráveis e lindas mulheres brancas com braços estendidos para mim, além da linha, mas não consigo chegar lá de modo algum, não consigo passar da linha”.  Ela reproduziu uma fala de Harriet Tubman dita nos anos 1800. Mais de um século. Tão atual!

“De verdade, a única coisa que separa mulheres de cor de qualquer coisa é a oportunidade. Você não pode vencer um Emmy por papéis que simplesmente não estão lá. Este premio vai para todas as pessoas que redefiniram o que significa ser bonita, ser sexy, ser uma protagonista, ser negra”.

Entro em êxtase todas as vezes que vejo o vídeo de Viola, e ao mesmo tempo fico em choque quando escuto, vejo e vivencio o lado contraditório do que esse discurso nos mostra.

Inicio meu décimo período como Acadêmica de Direito, fase em que me considero mais madura no âmbito da graduação, no contexto do trabalho que tenho e principalmente na postura social que escolhi. Com o término do meu curso a procedência ou pelo menos o anseio de atuação no mercado, velhos e suspeitos discursos recebem mais forças, um deles inevitavelmente tem a ver com “estética”.

De verdade, é importante enfatizar que, na minha opinião não é o tamanho do short que usamos, não é a blusa decotada que decidimos escolher, não é o fato de se ter a cor A, B, C ou D, muito menos o ritmo musical que aprecio, quer seja o  funk ou seresta na minha playlist,  que justifica sermos ou não atiradas, sermos ou não vitimas de assedio. Quem assedia tem dentro de si esse conteúdo e para esse ato não precisa de nenhum pretexto.

Da mesma forma não é o tamanho do salto que eu uso muito menos a marca do blazer que eu compro que definirá a extensão da minha capacidade intelectual, do meu desempenho como advogada.

Existe uma diferença clara entre ter que ser e querer ser. Ultimamente vivemos atos que estão cerceando nossa liberdade, retrocedemos muito nos últimos meses e estamos muito aquém de nos tornarmos um país justo. Olhando a conjuntura estamos tristemente andando como caranguejos.

Umas das razões mais revoltantes desses processos é o fato da culpa nunca ser de quem comete o ato selvagem quer seja do abuso (quem assedia), da corrupção (quem comete e compactua) ou dos golpes políticos (quem está envolvido) contra pessoas ou nações, na forma subjetiva ou objetiva, mas sim, sempre recair no lado mais fraco. É sempre quem tem menos poder político ou econômico a vítima a quem recai a culpa quer seja em caso de estupro ou assédio, ou a qualquer outro caso anteriormente citado.  Quem é negro sempre é primeiramente visto como culpado. Por quê? Pela cor? Pelo fato de ter seus antepassados escravizados? Por que tanta morte de jovens negros? E de quem é a culpa? Da vítima?

A pergunta de quem é negra, como eu é: Qual é a minha responsabilidade na culpa que vocês nos imputam, mesmo se formos inocentes?

Ser bom ou mal, ser honesto ou desonesto não depende de cor, gênero e ou situação financeira. Ser capaz também não depende da roupa usada.

Não! O padrão de beleza alcança outros elementos para além dos que os meros critérios estéticos hegemônicos conseguem delimitar.

No trabalho de advogado, professor ou médico apenas para citarmos três exemplos precisamos sim nos vestir adequadamente, mas sem exageros! Sem imposição de um padrão único. O importante é sabemos exatamente o que fazer e como fazer. Por que elevar o nível de exigência? Não esqueçam que a linha é tênue e a realidade atualmente é outra. Algumas das pessoas mais inteligentes do mundo preferem simplificar na estética para potencializar a cabeça colocando o mundo numa via mais humanizada e feliz.

De salto, de alparcata, de oxford, de havaiana, de bolsa Carmen Stefen, com perfume de marca, com a preferência e a condição do momento, sem preconceito é como se deve estar. Comendo no restaurante mais sofisticado ou no cachorro quente que fica em frente ao escritório ou tribunal.

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